terça-feira, 8 de abril de 2014

Sobre fadiga, nuances e miscelânea.


Observo este mundo caduco.
Este mundo que também é meu próprio eu e el@s.

Fadiga-me.
Fadiga-me no sentido mais lato do fatigar se.

As vezes, me sinto como em pequenos pedaços, esta violência vertical tenta dividir a nossa miscelânea que nos mantem viva.
Nossa miscelânea é a resistência , nossa colorida identidade plural, que nos devolve a vida.
Porque eu não sou eu, sem o você.

Ainda bem que estes nuances de alguma forma sempre me encontram.
Que a vida não se restringe ao ali, a vida é feita do momento.
Hoje não tem lugar na prateleira, não tem espaço
Hoje é como eu o sinto, e deixo-me sentir.
Hoje eu não me calo.

Que hoje ninguém roube o nosso direito de gritar quando somos oprimidas.

Graci Furby




segunda-feira, 7 de abril de 2014

Pedagogia do oprimido- Paulo Freire


" O mundo é espetáculo mas sobretudo convocação. E, como a consciência se constitui necessariamente como consciência  do mundo, ela é, pois, simultânea e implicadamente , apresentação e elaboração do mundo." (Ernani Maria Fiori no prefácio de Pedagogia do oprimido)  p. 15

Aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas sobretudo, com eles lutam."

"... A luta pela humanização, pelo trabalho livre, pela desalienação, pela afirmação dos homens como pessoas, como "seres para si", não teria significação. Esta somente é possível porque a desumanização, mesmo que um fato concreto na história não é porém destino dado, mas resultado de uma "ordem" injusta que gera a violência dos opressores e esta, o ser menos."p.41

" A liberdade que é uma conquista, e não uma doação, exige uma permanente busca. Busca permanente que só existe no ato responsável de quem faz . Ninguém tem liberdade para ser livre : pelo contrário luta por ela precisamente porque não a tem..." p.46

"A superação da contradição é o parto que traz ao mundo este homem novo não mais opresso; não mais oprimido, mas homem libertando-se" p.48

" É necessário que a liderança revolucionária descubra esta obviedade: que seu convencimento da necessidade de lutar, que constitui uma dimensão indispensável do saber revolucionário, não lhe foi doado por ninguém, se é autentico." p. 75

"A opressão, que é um controle esmagador,é necrófila.Nutre-se do amor a morte e não do amor a vida." p.92
 O que nos parece indiscutível é que se pretendemos a libertação dos homens, não podemos começar por aliena-los ou mantê-los alienados.A libertação autêntica, que é a humanização em processo, não é uma coisa que se deposita nos homens. Não é uma palavra a mais oca, mitificante. É praxis, que implica na ação e reflexão dos homens sobre o mundo para transformá-lo."(p.95)

"Seria, realmente, uma violência, como de fato é, que os homens, seres históricos e necessariamente inseridos num movimento de busca, com outros homens, não fossem o sujeito de seu próprio movimento."(p.105)

" Nenhuma ordem opressora suportaria que os oprimidos todos passassem a dizer: Por quê?" (p.107)

"Não ha diálogo porém se não há um profundo amor ao mundo e aos homens. Não é possível a pronuncia do mundo, que é um ato de criação, se não há amor que a infunda." (p.114)
" Não há também diálogo, se não há uma intensa  fé nos homens. Fé no seu poder de fazer e refazer. De criar e recriar. Fé na sua vocação de Ser Mais, que não é privilégio de alguns eleitos, mas direito dos homens."(p.116)

"Falar por exemplo em democracia e silenciar o povo é uma farsa. Falar em humanismo e negar os homens é uma mentira" (p.117)

"Afinal o empenho dos humanistas não pode ser a luta de seus slogans contra os slogans dos opressores tendo como intermediários os oprimidos, como se fossem hospedeiros dos slogans de uns e de outros. O empenho dos humanistas, pelo contrário esta em que os oprimidos tomem consciência de que, pelo fato mesmo do que estão sendo hospedeiros dos opressores, como seres duais, não estão podendo ser." (p.123)

" Ao não ter este ponto de decisão em si, ao não poder objetivar-se nem a sua atividade, ao carecer de finalidades que se proponha e que proponha das sentido, ao não ter um amanhã nem um hoje, por viver num presente esmagador, o animal é ahistórico. Sua vida ahistórica se dá, não no mundo tomado em sentido rigoroso, pois que o mundo não se constitui em um não eu para ele, que seja capaz de constitui-lo como eu." ( p.127)

"A "situação limite" do  subdesenvolvimento, ao qual esta ligado o problema de dependência, é a fundamental caraterística do "terceiro mundo". A tarefa  de superar tal situação, que é uma totalidade, por outra, a do desenvolvimento, é, por sua vez, o imperativo básico do Terceiro  Mundo." ( p.136)

" A questão fundamental, neste caso, está em que, faltando aos homens uma compreensão crítica da totalidade em que estão, captando-a em pedaços nos quais não reconhecem a interação constituinte da mesma totalidade, não podem conhece-la, seria necessário partir do ponto inverso. Isto é, lhes seria indispensável ter antes a visão da totalidade do contexto para, em seguida, separarem ou isolarem os elementos  ou as parcialidades do contexto, através de cuja cisão voltaria com mais claridade à totalidade analisada."( p.137)

"Este movimento de ida e volta, do abstrato ao concreto, que se dá na análise de uma situação codificada, se bem feita a decodificação, conduz á superação da abstração com a percepção critica co concreto, já agora não mais realidade espessa a pouco vislumbrada" ( p.139)

" A metodologia que defendemos exige, por isto mesmo, que no fluxo da investigação, se façam ambos sujeitos da mesma - os investigadores e os homens do povo que, aparentemente,seriam seu objeto."(p.141)

" Do ponto de vista do investigador importa, na análise que faz no processo da investigação, detectar o ponto de partida dos homens no seu modo de visualizar a objetividade, verificando-se, durante o processo, se observou, ou não, alguma transformação no seu modo de perceber a realidade." ( p.142)

*  {sobre investigação temática} : (...) a ser objeto da analise, para os homens mesmo, como se fossem coisas, fazendo-se assim objetos da investigação. Esta, à base da qual se pretende elaborar o programa educativo, em cuja prática  educadores- educandos e educandos- educadores  conjugam sua ação cognoscente sobre o mesmo objeto cognoscível, tem de fundar-se, igualmente, na reciprocidade da ação. E agora, da ação mesma de investigar." (p.143)

"Neste sentido é que toda investigação temática de caráter conscientizador se faz pedagógico e toda autêntica educação se faz investigação do pensar" (p.145)

"Para entender, igualmente, a esta exigência fundamental, é indispensável que a codificação, refletindo uma situação existencial, constitua objetivamente uma totalidade. Daí que seus elementos devam encontrar-se em interação, na composição da totalidade.
 No processo da decodificação  os indivíduos exteriorizam sua temática, "explicitam" sua consciência real " da objetividade." (p.156)

" A tão conhecida afirmação de Lenine(*): " Sem teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário" significa precisamente que não há revolução  com verbalismo, nem tão pouco com ativismo, mas com praxis, portanto, com reflexão e ação incidindo sobre as estruturas a serem transformadas." (p.174)
 * On Politics and Revolution - Lenine

"O desejo de conquista, talvez mais que o desejo a necessidade da conquista, acompanhada a ação antidiálogica em todos os seus momentos." (p.194)

" É que, somente na medida em que os homens criam o seu mundo humano, e o criam com seu trabalho transformador- se realizam. A realização dos homens, enquanto homens, esta pois, na realização deste mundo do trabalho é um estar em dependência total, em insegurança, em ameaça permanente, enquanto seu trabalho não lhe pertence, não pode, realizar-se. O trabalho não livre deixa de ser  um quefazer realizador de sua pessoa, para ser um meio eficaz de sua "reitificação"; (p.203)

" A invasão cultural implica ainda, por tudo isto, em que ponto de decisão da ação dos invadidos está fora deles e nos dominadores invasores. E, enquanto a decisão não esta em quem deve decidir, mas fora dele, este apenas tem a ilusão de que decide." (p.225)


"(...) ninguém desvela o mundo ao outro e, ainda quando um sujeito inicia o esforço de desvelar aos outros, é preciso que estes se tornem também sujeitos do ato de desvelar.
 O desvelamento do mundo de si mesmas, na praxis autentica, possibilita as massas populares a sua adesão. (p.238)

" Não ha vida sem morte, como não ha morte sem vida, mas também há uma "morte em vida". E a "morte em vida é exatamente a vida proibida de ser vida." (p.242)


*{ cultura do silencio - Cultural action for freedom Freire }

" A investigação dos temas geradores ou da temática significativa do povo, tendo como objeto  fundamental a captação dos seus temas básicos, só a partir de cujo conhecimento é possível a organização do conteúdo programático para qualquer ação com ele, se instaura como ponto de partida do processo de ação, como síntese cultural." (p.256)

FREIRE,PAULO. Pedagogia do Oprimido.Edição de João Barreto, editora: Afrontamento, Porto:1972.