domingo, 20 de dezembro de 2015

As ondas - Virginia Woolf

"Agora vou embrulhar minha angústia dentro do meu lenço. Vou amassá-la numa bola apertada. Antes das aulas, quero ir sozinha ao bosque de faias. Não ficarei sentada à mesa fazendo cálculos. Não me sentarei perto de Jinny e perto de Louis. Vou levar minha angústia de depositá-la nas raízes sob as faias. Vou examiná-la, pegá-la entre meus dedos. Não me encontrarão. Comerei nozes e procurarei ovos entre as sarças, meu cabelo ficará emaranhado e vou dormir sob as sebes, bebendo água das poças, e morrerei lá."

" Meu coração fica todo áspero, esfola meu peito como uma espada de dois gumes; por um lado adoro sua magnificência; por outro desprezo sua pronuncia relaxada- eu, que lhe sou tão superior- e tenho ciúmes" p.29

"Sozinha, muitas vezes mergulho no nada. Preciso firmar meu pé fortemente, se não caio no limite do mundo para dentro do nada. Preciso bater minha mão contra uma porta rija, para me chamar de regresso ao meu corpo" p.34

"Como um guarda sol, meu corpo fecha-se insolente na cara dela. Abro meu corpo, fecho meu corpo a vontade. A vida esta apenas começando. O tesouro da minha vida ainda esta intacto" (p.49)

"Também eu sou por demais complexo. No meu caso, algo sempre flutua, desvinculado de tudo."(p.59)

" O nó na minha garganta vai diminuindo, Palavras juntam-se, grudam-se, atropelam-se uma por cima das outras. Não importa quais sejam. Empurram-se e trepam umas nos ombros das outras. As isoladas, as solitárias acasalam-se, cambaleiam multiplicam-se. Mão importa o que digo. Como um pássaro a esvoaçar, uma frase cruza o espaço vazio entre nós. Pousa nos lábios dele."(p.78)

"Precisamos opor-nos as desperdício e deformidade do mundo, suas multidões circulando por aí, vomitadas e pisoteadas. É preciso passar espetáculos de maneira suave e exata entre páginas de romances,amarrar maços de cartas asseadamente com seda verde, e varrer as cinzas com as escova da lareira. Tudo deve ser feito para exprobrar o horror da deformidade.
(...)
- Mas se algum dia você  não vier depois do café da manhã, se algum dia avistar você  em algum espelho, talvez procurando por outro homem se o telefone toca e toca em seu quarto vazio, então, depois de indizível agonia- pois não tem fim a loucura do coração humano- procurarei outro, encontrarei outro, você. Neste meio tempo, vamos abolir com um sopro o tiquetaque dos relógios. Chegue mais perto de mim."(p.134)

"Cada visão é um arabesco traçado de súbito para ilustrar um capricho ou a maravilha de um momento de intimidade." (p.158)

"Diante de meus olhos abra-se - um livro;olho o fundo; o coração- vejo as profundezas. Sei que  amores fremem em fogo; ciúme dispara seus lampejos verdes o amor faz o nós;o amor desmancha-nos brutalmente outras vez. Tenho sido atacado; tenho sido dilacerado."(p.159)

"Qual a frase para a lua? E a frase para o amor? Com que nome devemos designar a morte? Não sei. Preciso de uma linguagem reduzida como a dos amantes, palavras de uma sílaba como a que as crianças falam quando entram no quarto e encontram sua mãe costurando e apanham um pedacinho de lã colorida, uma pluma ou uma tira de chintz. Preciso de um uivo; um grito. Quando a tempestade vara o charco e passa por cima de mim, deitado na vala sem ser notado, não preciso de palavras. De nada que seja exato. De nada que baixe com todos os seus pés no chão. De nenhuma daquelas ressonâncias e adoráveis ecos que se quebram e repicam de nervo em nervo em nossos peitos, formando música selvagem e frases falsas. Acabei com a frase."(p.220)




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